04/05/2012

Neither black nor white


Quem dera minha geração tivesse vivido nos tempos da televisão em preto e branco. 

Assim, talvez tivéssemos algum entendimento sobre esse mundo que de tão colorido, ofusca a visão e engana os sentidos. 

Mas nossos pais, nem eles, sabem dizer. 

Tentaram nos ensinar que decisões são A ou B, mas dificilmente lembraram de acrescentar que entre A e B existem variações e combinações, AB, a, b, AA, BB. Provavelmente não sabiam como explicar essa confusão de análise combinatória misturada com aula de genética humana, enquanto ainda éramos crianças brincando de boneca, pega pega, queimado, bola de gude e esconde esconde. 


Doces tempos, nostalgia eterna..



E então a gente cresce e a realidade se apresenta misturada, confusa e cheia de contrastes. A nossa primeira reação é a de buscar A e B, calma ou desesperadamente, a depender do medo que carregamos e do susto que tomamos. Busca fracassada, finalmente compreendemos que são bonitas teorias que reprovaram na prova da vida real. 

Nos pegamos diante de um mundo diferente, onde nem tudo é o que parece, e pior, mesmo parecendo, temos dificuldade de encaixar nessa ou aquela definição. Que estereótipos não definem e as surpresas surgem do mais inesperado ponto do caminho.   


E agora? Pra onde ir?

E que, ao contrário das histórias que ouvíamos deitados na cama, vendo personagens coloridos pintados em situações no papel, inocentemente delineando um caminho e seguindo por ele, enfrentado lobos maldosos pintados com um sorriso meio assustador, nem sempre sabemos o que fazer. E pode ser que, no meio do caminho que havíamos traçado, a decisão pelo mesmo venha a parecer insensata, burra e infantil, e nesse momento enfrentamos uma decepção interior, pelo castelo desenhado no nosso imaginário que se mostrou de areia, quando críamos ter sido feito de tijolos e com vigas bem colocadas. 






Por isso, talvez tenhamos que voltar tudo e mudar pra outra direção, e por mais que essa seja a decisão certa naquele momento - porque, novamente, podemos considerá-la errada em um futuro próximo ou distante, o arrependimento por não ter feito diferente vai ser um companheiro constante a partir dessa inversão de sentidos. Que inocente, que idiota, que imaturo! Xingamos nossos eus do passado com tanta convicção e furor que chegaríamos a duvidar se pudéssemos nos ver de fora.

Acredito que seja esse o motivo do Felizes para sempre nas histórias infantis. 

Porque em cada momento, um final feliz é possível, e o que pode nos fazer felizes hoje não necessariamente nos fará felizes amanha. 


Assim, se as historinhas fossem continuar mostrando o que vem depois do Happily ever after, elas nunca teriam fim.



Porque as vidas são vividas até o último suspiro, e nesse intervalo entre começo e fim, a constância é a mais vulnerável das ilusões









Mas não seríamos capazes de compreender conceito tão abstrato enquanto pequenos, enquanto criadores de mundos paralelos em que a realidade não cabia. Por isso, somente quando despertamos da infância conseguimos compreender quão relativo podem ser os conceitos começo, fim, felicidade, e, principalmente, eternidade.

Portanto, apreciemos renovadamente a grandeza das palavras de um talentoso, porém tambem efêmero, personagem da poesia brasileira, que foi feliz e sábio ao afirmar: 





Salve, Vinicius de Moraes!




22/04/2012

Eu quero ter paciência.

Costumo ouvir que eu sou boa conselheira. No geral, eu consigo enxergar a vida das pessoas e as situações pelas quais elas passam com facilidade, consigo me colocar no lugar delas e mesmo sentir um pouco do que sentem. Essa troca torna fácil dizer o melhor caminho a seguir e as alternativas que se lhes colocam.

Contudo, quando se trata de mim, a situação se inverte. 

Porque para conseguir fazer o mesmo, eu preciso sair de mim mesma, e me ver de fora. Esse intento, poucos conseguem. Não costumamos considerar as nossas vidas como instrumento de estudo, como objeto, e a partir, ou melhor, fora dela, tomarmos as devidas notas e decidirmos o melhor a ser feito.
Se poucas pessoas conseguem se colocar no lugar do outro, e assim compreender (ou tentar) seus motivos, ajudar sinceramente e analisar pragmaticamente por estar fora e dentro ao mesmo tempo, pouquíssimas conseguem colocar-se fora delas mesmas. 




Cada ser humano tem suas limitações e possibilidades: para cada um, um desafio corresponde. Sim, e alguns deles são meio quebra-cabeças.




Diariamente, situações se apresentam, e suas soluções dependem de como analisaremos os porquês, quandos e ondes. Não considero alguém melhor ou pior, porque cada cor tem sua preciosidade, assim como cada alguém. Somos diferentes, apesar de buscarmos as mesmas coisas, e também o são os caminhos. Parte da construção do valor humanidade compreende entender e fazer-se realidade dessa verdade, e desses processos. 

Um de cada vez, e todos ao mesmo tempo, o destino ideal seria que contribuíssemos em uníssono para a construção desse futuro de desiguais unidos. 

Enquanto ser crente e esperançoso desse futuro, vou fazendo minha parte, entre caminhos descontínuos, oferecendo o meu ponto de vista a quem o pedir, e ansiando por ouvir de outrem aqueles que não consegui imaginar sozinha. Mas ocasiões se apresentam onde eu espero que de fora venha uma orientação a qual não fui capaz de encontrar. 

A resposta nesses momentos se faz vazia, um eco de vozes dispersas e inaudíveis, que voltam para si mesmas sem me alcançar. Sinto que existem, mas rebatem-se entre si. 

Oi? Alo? Tem alguém ouvindo? Não? Help me!!!!!!! hahahaha

Demorei a entender que, da mesma forma que sou capaz de falar aos que podem me ouvir, um dos meus desafios consiste exatamente em saber lidar com o não ouvir, não por incapacidade, mas sim como forma de crescimento de mim mesma. Não escolhi chegar nesse ponto, mas com certeza dei os passos que me trouxeram a ele, o que me torna tão responsável como se o tivesse escolhido.   

Como dado, essa realidade pode me perturbar em alguns momentos. Balançando a cabeça, as pernas, os cabelos, andando de um lado pro outro, e eis que chega o momento em que sento, respiro fundo, abro meus pensamentos, e as respostas surgem. Ainda que subentendidas, enigmáticas, recalcadas..

E com tudo isso, eu entendi que, das virtudes de outrora e outrem, me vejo ansiando pela paciência






18/04/2012

Das cinzas, eis que nasce um sorriso.



Se você considerar a minha idade, 22 anos, muitos diriam que vivi pouco. 
Contudo, para mim, foi o suficiente para vivenciar possibilidades ou ausências, em círculos, indo e vindo, e chegar ao ponto em que eu sentei e pensei: e agora? 
De repente, os meus planos de outrora pareceram sem sentido, as antigas vontades desvirtuaram-se, e o futuro me pareceu aquela página em branco a qual eu não tinha capacidade de ocupar, com um plano sequer. 

Foi a hora em que eu deitei na cama, olhei pra parede cheia de fotos sorridentes e amigos - muitos dos quais perdi o contato, e pensei: o que aconteceu com aquela pessoa de antes, que em muitas situações me parece tão distante, quase outra? Yesterday, dos Beatles, caiu como uma luva.




Considerando a variedade e quantidade de existências, essa sensação pode ser encarada como um ponto de referência  para muitos. Em algum momento, a inexpressão se instalou, e arrancar um sorriso do meu coração parecia tão difícil quanto, em um dia do passado, me pareceu a possibilidade de infelicidade, numa festa qualquer.

Os motivos que nos fazem chegar a esse momento não importam, a sensação que ele traz, sim. E não vou descrevê-la, porque não quero estragar a surpresa de quem nunca sentiu, e muito menos ressuscitá-la em que já a conhece. Mas o que eu quero dizer é que, quando esse momento chega, temos duas opções: a mais óbvia, afundar com ele; a outra, ressurgir dele.

Acredito que nenhum momento pode ser tão propenso a bons frutos do que aquele em que o tudo é nada. Do nada, tudo pode nascer. Meio fênix mesmo, porque não? Então encarei a tal ausência de sorrisos.. 


Fonte: Proyecto Fenix


Aliás, eu sorria.
O que estava ausente era a força interior, aquela energia que movimenta o corpo, head to toe, um banho de dentro pra fora, uma descarga emocional incrível que te faz considerar o impossível uma questão de ponto de vista. Aproveitei pra sentir o efeito dessa falta, conhecê-lo, vivê-lo.
Desagradável, desanimador, decepcionante. 

Sabe, sou daquelas pessoas que não consegue viver sem sorrisos. 

E acredito que não sou a única. Por isso resolvi gritar aos quatro cantos: sim, EU JÁ FUI INFELIZ! E por conhecer a infelicidade, tive mais vontade de buscar o seu antônimo.

Não desejo pra ninguém, por isso vou contar como fugi da minha (sim, fugir mesmo): desapeguei dos grandes, projetos, planos, medos, regras, tudo.

Descobri que o grande é algo que já foi construído, por outro alguém, que não eu. Com isso, pude focar nos pequenos.. sonhos, horas, detalhes, amigos, prazeres, com os quais serei capaz de construir minha própria (também grande) história. 
Pedaço por pedaço, com calma, utilizando os projetos alheios como fonte de informação, inspiração, para matar a curiosidade. 

Mas, ao olhar pro meu, lembrando sempre que, original ou não, o que importa na minha construção é que seja fruto das minhas escolhas. 

E a principal delas é nunca mais deixar de (e ter vontade de) sorrir.


20/03/2012

Negativos entrelaçados

Insone, volto pra minha zona de conforto. 
Dentro de mim, onde ninguém consegue ouvir, meus pensamentos reverberam, parecem ter vida. 
Chego a me sentir no meio de uma festa, ouço diferentes vozes de mim mesma, cada uma dizendo uma coisa, querendo ser ouvida, querendo ser a principal. 
Não são necessariamente pensamentos coordenados: sim, apesar de vívidos, são soltos. 
Aqui e ali, como se fossem pedaços do negativo de um filme, e eu pudesse montar, um por um, na ordem que me convém. Mas nem isso! 
Escapam-me por entre os dedos, escorregadios, despedaçam-se diante dos meus sentidos, e fico sem saber o que de fato existiu e o que foi ilusão. 


Mas existe ilusão dentro do meu próprio pensamento? Ou seria a ausência de consciência dentro do meu inconsciente já desprovido de uma?
Me pego sem saber, perdida por entre caminhos entrelaçados.. estou acordada, mas preferia dormir. 
Não consigo controlar a intensidade de imagens, diálogos, personagens que em um minuto se constroem e se desfazem, são livros construídos e destruídos em milésimos de segundo. 
Se ainda permanecessem um pouco mais, assim poderia colocar ordem, tentar juntar os pedaços. 
Mas me foge o controle, e de repente, quero apertar stop, mas alguém vem e passa uma borracha, e tudo fica branco novamente. 
Fico me perguntando como posso me sentir confortável se nem sei onde estou, nem como, nem quando..
E então penso que, de dentro dessa avalanche, e do meio dela, devem sair novos contornos, novas oportunidades.


Na verdade, a entropia não pode desordenar algo que já se encontra bagunçado, e talvez ela tenha mesmo a função oposta, bagunçar o bagunçado e assim, quem sabe, resultar em um filme com algum significado?
Ah, espero dormir.

27/02/2012

Por uma carona e uma conversa

Hoje eu voltei às aulas pela manhã. 
As viagens para a faculdade quando eu acordo costumam ser produtivas, a disposição do dia inteiro pela frente.. e unindo isso ao primeiro dia da semana, eu estava relativamente inspirada, apesar de ter dormido tarde - da lista daqueles vícios de estudante em épocas sem aula.  

Então, eu sou meio curiosa. Gosto de olhar as pessoas dentro dos carros e como elas são, e imaginar pra onde elas estão indo. Se são casados, se pai e filho, irmãos, enfim. 
Hoje olhei pra frente e vi todos os carros ao meu redor, no meio daquele emaranhado de automóveis agoniados querendo andar logo e passar na frente de todo mundo, e reparei numa coisa: todos estavam sozinhos. Sim, incluindo eu.
Não havia ninguém ao lado de nenhuma das pessoas, e a maioria me parecia estudante ou professores a caminho da faculdade. Fiquei pensando no desperdício, desperdício de conversas e amizades que poderiam estar sendo feitas se ao invés de 5 carros existissem 2, e cada um deles com outro alguém, além do motorista. 
Sim, porque afinal de contas a vida de dirigir pelas ruas, indo e vindo, é solitária. Cada um no seu mundo, ouvindo seus cantores preferidos e divagando sobre sonhos engavetados ou promessas a serem cumpridas. 

Eu sou a favor da individualidade, enquanto capacidade de um ser humano viver a sua vida, de acordo com seus próprios conceitos, buscando a sua felicidade e seguindo seu caminho. Mas eu acredito que a cena dos carros representa um pouco do que essa vida cheia de compromissos, desejos íntimos (e egocêntricos, talvez) e redes privadas tem causado das pessoas. E a evolução.. toda essa quantidade enorme de parafernália que fazem nossos familiares, principalmente os nascidos antes da década de 60, ficarem de cabelo em pé. 
Digo, a propaganda chama de evolução. 
Não vou ser hipócrita de negar suas vantagens e a gama de benefícios que realmente são fruto dessa tecnologia e do desenvolvimento de novas ferramentas, meios de transporte, comunicação, etc. 
Sim, hoje se pode tratar um câncer, viver uma vida tranquila tendo AIDS, falar com o namorado do Brasil direto do Japão online, publicar um vídeo e arrecadar dinheiro pra uma causa em poucos dias. E outros tantos. 


Somos tantos.. e tantos querem ser mais ainda.

Contudo, me pego confabulando: grande parte das pessoas anda saindo de casa e deixando a razão no congelador - deve ser.
Vamos pensar.. todo o tipo de grupo existe em menor quantidade de pessoas hoje, do que antes. As comunidades, as igrejas, os amigos. Existem mais grupos com menos pessoas.
Cada um quer ser especial e diferente, moderno, inovador, se destacar no trabalho, em casa, com os amigos. Eu pergunto: quanto custam essas independências?

Com certeza é sem igual a sensação de sair de casa com o seu próprio carro e resolver a sua vida. 
Mas dentro daquela coisa grande de metal, cheia de motores e pedaços que se quebram, e pneus que furam, isolado do externo e protegido inclusive de raios, as pessoas não perdem somente tempo no trânsito, como um pouco da humanidade. Isso sem falar do caos.

Ah! Se o sistema de transportes ajudasse, e a segurança fosse maior.. 

Dirigindo sozinhos, no controle de suas vidas, são levados a acreditar que todas as esferas devem ser conduzidas da mesma forma. Os erros são facilmente corrigidos depois de uma certa quantia de dinheiro ser paga, entrar na contramão não é errado, contanto que ninguém veja, passar dos limites na velocidade? Tudo bem se não tiver radar! E assim, vão ficando impacientes, intransigentes, irresponsáveis, intolerantes, mal educados, egoístas. Não me refiro a todos, em todos os momentos. Mas um ou outro, um de cada vez (ou juntos, vai saber) pensou dessa forma, e nesse caso a soma das partes é quase igual ao todo.

Por causa disso, cada vez que vejo o IPI ser reduzido, e saio de casa e me deparo com aquele mar de luzes    de freio diante de mim, eu fico desejando e temendo, desejando que a vontade de dar ré e ir mais devagar esteja presente aqui e ali, e temendo que essa esperança infantil se perca nas horas diante do semáforo vermelho.  

S-O-C-O-R-R-O! Como se já não bastasse! 


Tudo isso, claro, sem considerar os méritos dos governos, a ausência de uma infraestrutura viária adequada e de segurança pros usuários. Mas eu acredito que enquanto os serviços públicos continuam os mesmos, pelo menos as pessoas poderiam ser diferentes. E por isso eu não nego caronas, nem as boas conversas que são frutos delas. 

Modéstia à parte, eu sou muito boa motorista. 

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